Nessa semana vim pensando sobre alguns tópicos que, de certa, forma se conectam. No domingo, 26/07, o cantor Jão lançou um novo álbum, “Memórias Póstumas”, que fala muito sobre a partida de seu pai.

Talvez pareça não ter sentido falar disso no Ciao Maria, mas na verdade tem sim.
Desde que meu avô faleceu, em 2021, eu nunca mais vi nada do mesmo jeito. Por que a vida que continuou sem ele tem um buraquinho. A vida tem a falta dele quando ligo para casa da minha avó, nos almoços de domingo e nos aniversários. Eu sinto falta das piadas e das histórias que ele nos contava. Eu sinto falta do coração dele. Sinto falta de cozinhar as coisas que ele gostava. E ainda lembro bem da última sopa de batata que fiz para ele comer.
Mas a partida do meu vô me mostrou que a vida é curta e é feita para ser vivida. Que devemos aproveitar as oportunidades que aparecem e viver do melhor jeito que pudermos. Me mostrou principalmente que passar tempo com quem a gente ama é o mais importante, pois somos todos feitos de pessoas e conexões.

A partida do meu avô me mostrou também que na vida tudo passa. E que quando lutamos e temos fé, podemos dar um jeito. Tudo passa. A dor que, no momento da partida rasga o peito e destrói todas a certezas que a gente carrega, ameniza com o tempo e se torna saudades. Uma saudade bonita, com memórias que enchem o coração.
Se a vida passa tão depressa então, eu me perguntava o motivo de sair de casa, ficar longe da família, amigos e daquilo que eu construi. Mesmo que fosse por pouco tempo, não temos controle sobre o que acontece. Se eu tinha tudo que eu precisava, porque sair?
Mas existem sonhos e ideias que, uma vez que entram na cabeça não saem mais. Não são todas as pessoas que tem essa oportunidade, então se eu tive, tive de aproveitar. Tem coisas que a gente só aprende longe de tudo que conhecemos, hoje eu entendo. Um ano é muito tempo mas passa voando.
Se eu pudesse dar um conselho para quem pensa em fazer isso, mas, assim como eu tem muito medo é: vai. Vai doer? Muito. Talvez pareça besta, pois é uma escolha que você mesmo fez, mas quando se é muito apegado, sair do conforto é apavorante. Mas não só para um intercâmbio, mas para qualquer sonho que você tenha.

Antes de vir, o que eu chorei é brincadeira. Nos meus primeiros dias tive crises de choro em todos os lugares imagináveis. E a pior parte é dar tchau. Ver minha família voltando quebrou meu coração em pedacinhos. E quebra até hoje quando eu tenho que dar tchau. Não tem uma vez que eu não chore, que não doa, que não dê vontade de voltar. Mas hoje, depois de nove meses eu sei que passa. Eu tenho meus amigos aqui que sabem como é essa sensação e me abraçam.
A vida passa tão depressa que cada momento vale. Meu vô conheceu o mundo e hoje eu estou fazendo o mesmo. Mas só é possível com o amor e apoio que eu recebo, e também por acreditar em mim.
Hoje, se passaram 5 anos que meu avô partiu, mas eu ainda vejo ele em tudo. Sinto saudade dele em cada canto, mas sei que ele está bem. Me seguro nas memórias boas e no amor que ele deixou. Na coragem que ele me ensinou e me permitiu sonhar e ir tão longe.
Desde que ele se foi, ouvir sobre o luto me deixa de certa forma feliz. Pois eu sei que outras pessoas passam por isso também. Dói, mas falar sobre isso cura também, ajuda a processar. Por isso, Memórias Póstumas me emocionou e tocou tanto. A forma como ele fala da perda, a forma como ele se expressa e compartilha a sua dor me abraçou.
As coisas ruins acontecem de fato em dia comuns. Sem aviso. E, nós que ficamos, somos obrigados a lidar com isso. Se o que nos resta é a lembrança e o presente, que possamos aproveita-los e usar a arte para curar.
Perder meu vô me fez valorizar mais ainda quem eu tenho por perto. A minha vida, o tempo.
Obrigada por colocar em palavras tudo o que você passou, Jão, com tamanha sutileza e cuidado nas palavras. Por transcrever essa dor e transformá-la em arte. Por compartilha-la com a gente. Por nos permitir sentir também. Tenho orgulho de você hoje e sempre.
Eu acho lindo e horrível que o amor não escolhe para onde vai.
Em breve eu continuarei com os posts sobre a Itália, só preciso de um tempo.
Maria

Deixo aqui algumas igrejas e catedrais que visitei nesses meses. Em homenagem a música e ao meu avô.